Sinto como se tivesse obstruído minha garganta com um entulhado de frases mortas. Morreram todas no segundo seguinte em que foram pensadas e não foram ditas e nem anotadas. Foram esquecidas, perdidas e até a própria lembrança de quem as criou está confusa, só consegue enxergar restos deteriorados de uma palavra ou outra que largadas ao vão não fazem mais sentido algum, sumiu o ritmo, sumiu a poesia, sumiu a graça que havia no que eu devia ter dado mais atenção. Sinto. Percebo uma necessidade de enterrá-las nessas páginas, marcá-las neste espaço. Necessidade... seria mesmo isso? Não. seria mais uma vontade de externar o que eu sinto de um jeito que creio que não sei mais fazer, mas que preciso tentar, mais uma vez.
Havia em mim, há tão muito tempo que já nem sei mais se é desde sempre, um desejo forte e ardente de sentir. Sim, sentir. Seja o que fosse. Apenas para sentir-me viva. Um disfarce para meu corpo de que ainda não morri. Seria morrer tão cruel assim para os que almejam estar vivos para todo o sempre? Será que existe mesmo alguém que gostaria de verdade assumindo todos os riscos e a solidão tendo-a que carregá-la como se se na verdade o existir fosse apenas o vazio, um espaço no tempo ocupado de alguma matéria que tem uma energia bem pequena dentro de si que se pudesse gritar diria não querer morrer, diria queria sentir... Medo, raiva, amor, paixão, copaixão, piedade, fúria, ira, alegria, felicidade... Alguns utópicos a longo prazo, alguns impossíveis de prever... Não importa... preciso sentir e de uns tempos pra cá tenho os sentido com tanta intensidade que as vezes acordo atordoada querendo não sentir nada. Apenas morrer e ficar entregue ao vazio, ao nada. Calma, estou eu me entregando aos turbilhões de pensamentos e idéias que brotam em minha mente não sei como e que são tão infinitamente rápidos que mesmo que os quisesse falar e digitar não conseguiria. Já está na hora dos homens espertos criarem algum dispositivo para que se gravasse os pensamentos das mentes das pessoas e depois pudéssemos ouvi-los com calma. O grito da nossa alma, a confusão do nosso espírito, enlouquecer com os murmúrios profundos do nosso ser.
Porque eu sou tão despoética quando na verdade gostaria que cada palavra entrasse e abalasse a vida de todos que lêem? cansei.